Mais de 120 policiais civis, entre escrivães, agentes, chefes de cartório e de operações, decidiram em Assembleia Geral, na noite desta quinta-feira, 23, fazer um pedido de demissão coletiva dos cargos comissionados e funções gratificadas que ocupam dentro da estrutura da segurança pública. Os policiais também resolveram que os outros integrantes das nove categorias que compõem o quadro da segurança pública não aceitarão ocupar esses cargos nas vagas deixadas pelos colegas.

Pelos cargos e funções, os policiais recebem entre R$ 600 e R$ 1,2 mil a mais nos salários.

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis, Leandro Almeida, contou em entrevista exclusiva para a Folha que se reuniu na tarde desta quinta-feira com o governador Antonio Denarium (Sem Partido) e levou as reivindicações da classe.

“Nós pedimos que o reajuste dos integrantes das outras nove classes do quadro da Polícia Civil ocorresse juntamente com o reajuste dos delegados em 2023. Ele nos disse que ia avaliar o impacto orçamentário na Seplan, na Segad, enfim… em 1001 órgãos, coisa que não foi feito em relação aos delegados. Eu trouxe a decisão para a Assembleia que decidiu não suspender os atos de protesto, até porque é legal e pacífico”

Leandro disse que uma das formas colocadas ao governador de distensionar a crise na polícia civil seria o pagamento das progressões aos policiais que têm direito e todos os requisitos previstos em lei. “Fizeram avaliação médica, avaliação funcional e curso de capacitação. Falta apenas o decreto promovendo os policiais.”

Sobre o pedido coletivo de demissão, Leandro esclareceu que o pedido coletivo não fará com que os trabalhos exercidos pelos nove cargos dentro da polícia civil deixem de ser exercidos. “Isso precisa ficar bem claro para a população. Essas funções são de chefia. São chefes de operações, chefe de cartório, perito chefe, médico legista chefe; eles vão pedir exoneração, mas vão atuar em suas funções de concursados de forma normal. Apenas os setores não terão mais chefia, não haverá ninguém para organizar trabalhos, responder expedientes, organizar missões. Eu disse para o governador colocar um delegado em cada unidade para trabalhar nessas funções. Eles não disseram que fazem tudo, deixa eles trabalharem então”.

O sindicato fez uma lista dos nomes que pediram demissão coletiva dos cargos no momento da reunião e essa relação deverá ser entregue ao governador.

“É obvio que a gente espera que o governador não tarde em dar uma resposta e avalie a possibilidade de pagar a promoção dos policiais civis. E a gente espera que, assim como foi feito para os delegados, também seja feito de forma isonômica para os outros policiais. Quando é para gente, é burocracia, prazo; e dos delegados foi de 8h da manhã até meio dia. 4h30 de tramitação e para os delegados foi aumento de salário; e estamos clamando ao governador enquanto entidade sindical que pague as promoções. O reajuste é para um segundo momento, para criar projeto de lei, para ir para a Assembleia e ser concedido apenas em 2023.”

Leandro Almeida afirmou ainda que os servidores da polícia civil vão continuar pedindo ao governador, que atenda às reivindicações da classe e não privilegie apenas uma categoria.

“A situação na polícia civil está insustentável e o governador é a única pessoa que pode resolver essa crise que está cada dia pior. Até agora não houve feridos fisicamente, mas temo que isso possa acontecer nos próximos dias, pois o clima está insustentável”, disse o sindicalista.

Sindicalista diz temer confrontos violentos e conta que delegada foi trabalhar de colete

Para exemplificar o clima de tensão dentro das delegacias da polícia civil, Leandro disse que uma delegada de polícia foi trabalhar usando colete à prova de balas.

“Não sei se recebeu ameaça direta, para aparecer ou receio próprio. O clima está muito tenso e todos falam apenas o essencial. A divulgação daquelas conversas derrubou a mascara de muita gente, pois sempre teve aqueles delegados carrascos e aqueles que eram tidos como ‘mais amigos’. Só que na divulgação das conversas, ficou comprovado que até os mais legais tramavam para abrir procedimento, remover policial, atrapalhar os colegas que têm acúmulo de cargo como professor; ficou insustentável e disse isso para o governador várias vezes”

Sobre o uso do colete na delegacia, o sindicalista explicou que apesar de ser um EPI (Equipamento de Proteção Individual), chamou a atenção. “Os delegados não usam colete nem em operação policial, quando vão. E dificilmente eles vão. Imagina num plantão ordinário usar colete. É claro que chamou a atenção”.

Para ilustrar a preocupação com a crise na polícia civil, Leandro citou que durante a Assembleia foi publicado novo boletim interno da Polícia Civil, onde novamente constam várias remoções de policiais civis que se manifestaram contra o reajuste dos delegados.

“Eles estão sendo removidos simplesmente por se manifestarem de forma ordeira e o delegado geral disse que não tinha perseguição, mas todo dia sai remoção de policial e se abre PAD para apurar ‘nada com coisa alguma’. Ou seja, estão executando fielmente o que foi acertado no grupo de delegados, para esvaziar o movimento, e isso vem sendo executado a céu aberto. E estamos sendo perseguidos, e ninguém faz nada.”

OUTRO LADO – A reportagem procurou o governo de Roraima para saber sobre a situação e foi informada pela Secretaria de Comunicação que o Governo de Roraima vai aguardar a manifestação oficial da categoria. “Mas adianta que se houver o pedido de desligamento, a Delegacia Geral fará novas nomeações a fim de não comprometer as atividades diárias da Polícia Civil”.

Informações: Folha de Boa Vista