Servidores das escolas estaduais militarizadas Luiz Ribeiro de Lima e Maria Nilce Brandão, em Boa Vista, procuraram o G1 para relatar episódios de assédio moral e abuso de poder que, segundo eles, são praticados tanto contra professores quanto alunos das duas unidades.

Dentre os casos relatados, estão desmaios de alunos durante ensaios de alamar – uma condecoração dada a estudantes com média superior a 80, exclusão de alunos com necessidades especiais das atividades, e punições como capinar ou lavar banheiro aplicadas a estudantes, além humilhações de professores.

Segundo os denunciantes, os treinamentos para a alamar em uma das escolas duraram de 30 minutos a duas horas. Em pé e sob o forte calor, os alunos desmaiam.

“O problema não é o militarismo, mas sim o seu excesso. Há escolas militarizadas que melhoraram a qualidade de ensino, mas existem as que exaltam a doutrina militar em detrimento da pedagogia”, disse uma das denunciantes.

O Ministério Público de Roraima (MPRR) abriu procedimento para apurar as denúncias de desmaios de alunos nas escolas militarizadas.

Uma das servidoras do colégio disse que chegou a alertar sobre os riscos para a saúde de se ficar por muito tempo exposto ao sol, mas afirmou ter sido ameaçada e teve de aceitar os treinamentos. Outra servidora comentou que presencia casos como esse até hoje.

“Já vi várias crianças passarem mal durante treinamento da alamar. Algumas desmaiam, outras ficam tontas e precisam ser carregadas. São crianças que perdem aula e ainda passam mal em prol de uma cerimônia. Às vezes suspeito que deve ter competição entre os colégios militarizados para ver quem faz a melhor cerimônia, pois não é possível submeter os estudantes a isso dessa forma”, contou.

Além disso, há denúncias da ausência de políticas voltadas para a inclusão de alunos com necessidades especiais nas atividades militares.

No ano passado, segundo os denunciantes, um estudante com autismo estava na lista para receber a condecoração, mas foi impedido de fazer parte da formatura de alamar. Segundo a mãe do estudante, o filho foi excluído pela falta de compreensão dos militares quanto a sua condição especial.

“O ano de 2018 mudou minha vida. É muito triste ver seu filho se irritando, mudando o comportamento, sofrendo tanto por causa de uma escola que não trabalha com inclusão. Ele passou a ser punido por não se enquadrar, sem que ninguém tentasse entender sua condição”. contou.

Nos colégios militarizados existem regras estéticas voltadas aos estudantes. Para as meninas, o cabelo deve estar amarrado ou curto o suficiente para não passar da altura do ombros. Já os meninos, não podem ter corte acima de três centímetros de altura e dois de lateral. Acessórios como colares, brincos, anéis e relógios também são proibidos.

“A punição para alunos que não seguem esse padrão, ou questionam demais, ou não se comportam, é de capinar ou lavar banheiro, como se fosse um quartel mesmo. Lá isso pode funcionar, mas impor isso a crianças é um abuso”, comentou outra servidora denunciante.

Professores proibidos de usarem metodologia

No outro colégio, uma professora de artes relatou que foi proibida de usar metodologias como canto e música na sala de aula. Ela relatou ainda casos de censura à conteúdos presentes nos materiais didáticos.

Um relatório como este caso, e tantos outros, foi elaborado por professores e encaminhado, em abril, à secretária estadual de educação, Leila Perussolo.

Em trecho do relatório, a denunciante descreveu que uma professora foi levada à coordenadoria do colégio porque estava ensinando aos alunos os diversos significados de tatuagens ao redor do mundo. Um tenente acompanhava a aula e ela foi acusada de fazer apologia ao crime organizado.

No mesmo relatório, a professora contou que se viu obrigada a cada vez mais abandonar o conteúdo didático, e fazer pesquisas próprias de quais assuntos poderiam ser tratados.

Também foi descrito que ela passou a comprar os materiais, como cartolina, tesoura, lápis de cor, para atividades, uma vez que a escola deixou de ceder do acervo.

“A coordenação aprovou de ano alunos que eram bagunceiros, para que a escola fosse bem avaliada, e sob o argumento de que minha disciplina ‘não é importante’”, escreveu a professora no relatório.

Ao G1, ela professora relatou que humilhações por causa de imperfeições estéticas são constantes. “Já vi um aluno do fundamental sendo chamado a atenção por ter feito um corte de cabelo onde uma foi desenhada uma cruz. Um capitão chamou a atenção dele em sala de aula e gritou ‘que p**** é essa? É para teu bofe ver quando te pegar por trás?”, afirmou.

Outro lado – A Secretaria de Educação e Desporto (Seed) informou que a atual gestão busca trabalhar a parte pedagógica e administrativa das escolas militarizadas com os gestores militares, de forma integrada, o que, segundo o órgão, até então não ocorria.

“A Seed não compactua com práticas abusivas de poder. A disciplina deve existir nas instituições de ensino, porém, respeitando a integridade física, moral e afetiva de todos os alunos e servidores”, frisou a nota.

Informações: G1 Roraima

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