A crise na saúde pública ainda aponta em números a carência de assistência às mulheres grávidas que chegam até a capital para dar à luz. Conforme dados da Secretaria de Saúde de Roraima (SESAU), o número de mortes de bebês na maternidade foi de 68 nos primeiros cinco meses deste ano.

O número de mortes de crianças menores de um ano de idade é menor do que o registrado no ano passado, quando ocorreram 80 mortes no mesmo período.
Mesmo com registros de redução, o alto número ainda é preocupante. De acordo com Adriana Casselli, diretora geral da Maternidade Nossa Senhora de Nazaré, a falta do pré-natal, acompanhamento e assistência médica durante o período de gestação, é a causa da maioria de óbitos de crianças no hospital.

“A maioria dos recém-nascidos que vão para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) são de pais imigrantes. A gestante imigrante chega até nós sem o pré-natal e com hábitos diferentes, por isso as gestações são consideradas de alto risco. Todos os bebês que morreram na maternidade possuem má formação congênita, resultado da falta de cuidados durante o pré-natal”, explicou.

Ainda segundo dados da Secretaria de Saúde, foram feitos no ano passado mais de 10 mil partos na maternidade. Somente de janeiro até maio deste ano já foram contabilizados 5.122 partos. Adriana ainda explicou que 40% dos nascimentos em maio foram de bebês filhos de mulheres imigrantes. As grávidas chegam no atendimento sem pré-natal, com depressão, doenças sexualmente transmissíveis, diabetes e desnutrição, o que segundo a médica contribui para um bebê malformado, prematuro e com baixas chances de sobrevivência.

“Se houvesse mais políticas públicas na saúde básica para acompanhar essas gestantes que vêm da Venezuela, o número de nascimentos de crianças prematuras certamente seria menor. O trabalho do pré-natal é de responsabilidade da Unidade Básica para que essas mulheres cheguem à maternidade saudáveis para realizarmos os partos”

Questionada se os números de médicos são suficientes para suprir a alta demanda em atendimentos, a diretora geral alegou que não há como afirmar quantos médicos são necessários para compor a equipe sem antes fazer um levantamento avaliativo.

“Atualmente temos 22 obstetras atuando na Maternidade, mas nossa forma de trabalho prioriza o parto normal. Existem poucos médicos com especialidade em Ginecologia Obstetrícia. Se todas as grávidas entrassem aqui para fazer cesariana, nós não teríamos tantos problemas, mas essa não é a solução. Temos menos de 24 horas para realizar os partos e acompanhar o recém-nascido, o que requer tempo e profissionais”, explicou.

CRM afirma que culpa não é dos médicos

De acordo com o Conselho Regional de Medicina (CRM-RR), questões como precarização das relações de trabalho e condições das unidades de saúde limitam o número de médicos que optam em atuar na rede pública e que, embora o Conselho realize vistorias e elabore relatórios a respeito, não possui poder legal para determinar o abastecimento das unidades com mais medicamentos, profissionais ou cobrar melhorias nas estruturas físicas.

Em fevereiro foi divulgado pelo próprio sindicato dos médicos de Roraima nota oficial repudiando a falta de condições de trabalho assim como a cobrança de providências para que se possa exercer Medicina, ressaltando que a culpa dos problemas na saúde pública não são dos profissionais, mas sim dos órgãos responsáveis pelo sistema.

Médica afirma que falta gestão

Para a Médica Eugênia Glaucy faltam planos de gestão para acompanhar o crescimento populacional e consequentemente o aumento na demanda de atendimentos, já que o segundo decreto anunciado pelo Governo Estadual de calamidade na saúde de Roraima, publicado em maio no Diário Oficial, prorrogado por mais 90 dias, aponta o grande fluxo migratório como principal fator no aumento da demanda de atendimentos que sobrecarregam os serviços públicos na área da saúde.

“Os problemas na saúde são resultado da falta de políticas públicas que contemplem a real situação do estado. É necessário que tenhamos uma gestão que avalie o crescimento populacional e aplique ações que condizem com a necessidade de todos”, disse.

Prefeitura diz que taxa de mortalidade é menor que a média nacional

De acordo com a Prefeitura de Boa Vista, a taxa de mortalidade infantil em Boa Vista oscilou entre 11,9 a 13,6 óbitos para cada mil nascidos vivos. Esse ano, a taxa de mortalidade infantil, até o momento, é de 10,22 para cada mil nascidos vivos. A média nacional é que os números sejam menores que 15 para cada nascido vivo. “Existem políticas públicas para dar assistência às mulheres grávidas, brasileiras e estrangeiras, na capital. É feito o acompanhamento regular através das equipes de Estratégia Saúde da Família, além de suporte pelo programa Família Que Acolhe. Ainda conforme informações, as unidades desenvolvem estratégias para incentivar a adesão ao pré-natal, palestras e outros projetos”.

Informações – Folha de Boa Vista – Fotos: Nilzete Franco