Pesquisa ou projeção disfarçada?

As recentes publicações da Carta Capital e do UOL sobre a situação eleitoral do Roraima baseiam-se em pesquisas de qualidade metodológica duvidosa, cujos critérios de coleta, verificação dos entrevistados e representatividade da amostra não resistem a uma análise técnica mais rigorosa. Ao adotar esses levantamentos como fundamento central da narrativa, tais matérias deixam de cumprir um papel meramente informativo e passam a assumir um caráter essencialmente publicitário, reforçando artificialmente a percepção de vantagem de quem aparece numericamente à frente, influenciando o debate público mais pela repetição do número do que pela consistência dos dados que o originaram.

Como AtlasIntel e Real Time Big Data fazem pesquisas eleitorais — e por que seus resultados exigem cautela

Nos últimos ciclos eleitorais, duas empresas passaram a ocupar espaço central no debate público brasileiro: AtlasIntel e Real Time Big Data. Embora utilizem metodologias distintas, ambas enfrentam críticas recorrentes quanto à confiabilidade de seus números. Entender como coletam dados — e onde estão seus pontos frágeis — é essencial para interpretar seus resultados com responsabilidade.

AtlasIntel: pesquisa online e o desafio da verificação

A AtlasIntel baseia suas pesquisas principalmente em coleta pela internet, usando painéis digitais, anúncios segmentados e convites online. O método é rápido, barato e permite grande volume de respostas em pouco tempo. Para ajustar a amostra, a empresa aplica ponderações estatísticas (por idade, sexo, renda, escolaridade, região e voto anterior).

O problema central está na verificação do entrevistado. Em pesquisas online, não há como assegurar plenamente que:

  • o respondente é quem diz ser;
  • vota na localidade declarada;
  • não respondeu mais de uma vez (mesmo com filtros técnicos);
  • não integra grupos hiperpolitizados ou militantes, mais propensos a participar.

Além disso, o ambiente digital tende a super-representar eleitores mais conectados, escolarizados e engajados, enquanto populações com menor acesso à internet ficam sub-representadas. A ponderação estatística ajuda, mas não elimina vieses de origem. Quando o viés está na porta de entrada da amostra, o ajuste posterior tem limites.

Real Time Big Data: entrevistas rápidas e amostras frágeis

A Real Time Big Data costuma empregar entrevistas telefônicas e presenciais, muitas vezes com prazos curtos. Em tese, isso permitiria maior controle do perfil do entrevistado. Na prática, surgem outros riscos.

Críticos apontam:

  • amostras pequenas, que ampliam a margem real de erro;
  • distribuição territorial desigual, com concentração em poucos municípios;
  • dependência excessiva de ponderações para “corrigir” lacunas da coleta;
  • volatilidade nos resultados, com mudanças bruscas entre levantamentos próximos.

Há também questionamentos sobre transparência metodológica: relatórios resumidos dificultam auditoria externa detalhada, especialmente sobre quotas regionais, horários de coleta e taxa de recusas.

Por que a desconfiança persiste

O ponto comum entre as duas empresas não é a ilegalidade — ambas operam dentro das regras formais —, mas a fragilidade estrutural das amostras. Pesquisas eleitorais são tão confiáveis quanto o processo de seleção do entrevistado. Quando esse processo é opaco, acelerado ou excessivamente dependente de ajustes estatísticos, o risco de distorção cresce.

Isso não significa que seus números “estejam errados” por definição. Significa que devem ser lidos com cautela, comparados com outros institutos, avaliados ao longo do tempo e jamais tratados como fotografia precisa do eleitorado.

Em democracia, pesquisa não é profecia. É ferramenta — útil, mas falível. E quanto menos transparente o método, maior deve ser o ceticismo do leitor.