A pesquisa da Fiocruz foi feita entre mulheres e crianças em aldeias de Amazonas e Roraima, onde foram coletadas amostras de cabelo de 272 pessoas, depois analisadas em laboratório (foto: Divulgação)

Uma pesquisa ainda inédita da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) constatou contaminação por mercúrio entre indígenas Yanomami. De acordo com o estudo, 56% apresentaram índice do metal acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Há suspeitas de relação desse fato com o aumento dos garimpos ilegais na região que usam mercúrio no processo de extração do ouro.

A pesquisa da Fiocruz foi feita entre mulheres e crianças em aldeias de Amazonas e Roraima. Foram coletadas amostras de cabelo de 272 pessoas, depois analisadas pelo laboratório do Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA).

A terra Yanomami tem 9,6 milhões de hectares entre os estados de Amazonas e Roraima. É uma das populações mais isoladas do país, e a região é rica em minérios como o ouro.

ACIMA

Em 4% da população analisada havia concentrações acima de seis microgramas de mercúrio por grama de cabelo, considerado o limite de tolerância biológica do corpo humano a essa substância. A partir desse valor, podem surgir doenças neurológicas. O percentual limite da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de dois microgramas de mercúrio por grama de cabelo examinado.

Uma criança de três anos de idade que teve seu cabelo analisado e apresentou um índice de 13,87 microgramas, sete vezes mais que o limite da OMS e mais de duas vezes maior que o índice de tolerância biológica.

A região onde fica a terra indígena Yanomami tem sofrido os efeitos da presença de garimpeiros ilegais. No dia 25 de julho, imagens de satélite avaliadas pela BBC News Brasil revelaram uma expansão dos focos de garimpo ilegal em Terras Indígenas de Roraima desde janeiro deste ano.

O avanço do garimpo ilegal no estado motivou a reabertura das Bases de Proteção Etnoambiental (Bape) da Terra Indígena Yanomami após quatro anos fechadas. No prazo de três meses, uma das bases terá sido reaberta e até 2020 todas estarão em pleno funcionamento com servidores da Funai, indígenas e a colaboração de agentes de outras instituições do Estado.

A reabertura acontece após decisão 1ª Vara Federal da Justiça Federal de Roraima dada em novembro no ano passado, após ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) para que as bases fossem reinstaladas. O órgão que cuida dos indígenas tinha que instalar as bases em até 180 dias

Apesar da situação considerada alarmante pelas lideranças, o governo federal já finalizou a minuta de um projeto de lei que prevê a regulamentação da mineração em terras indígenas. Também ontem, o presidente Jair Bolsonaro disse que a rejeição estimada “pode ser compatível” com a realidade. Ele afirmou acreditar que há incompreensão sobre o que é um garimpo.

‘TRISTE REALIDADE’

O líder indígena yanomami Davi Kopenawa diz que a contaminação por mercúrio não é uma novidade na região. “A gente sabe disso. E uma triste realidade. Garimpeiro, quando vem na nossa terra, não respeita nada. O mercúrio cai no rio, envenena o peixe e contamina a gente. Tem garimpo em nossa terra desde os anos 1970, mas aumentou muito recentemente”, relata o líder.

MERCÚRIO

O uso do mercúrio faz parte do processo tradicional utilizado no garimpo para separar o ouro dos demais sedimentos. Uma parte dele é despejada nos rios e igarapés e a outra é lançada na atmosfera. Uma vez na atmosfera, ele acaba caindo nas proximidades das áreas de exploração.

As águas dos rios e os peixes que ingerem o mercúrio podem levá-lo para regiões mais distantes. A contaminação de seres humanos se dá especialmente através da ingestão de peixes contaminados, sobretudo os carnívoros e de tamanho maior.

O mercúrio é um metal altamente e a contaminação por ele pode provocar alterações no sistema nervoso central, perda de visão, doenças cardíacas entre outras debilidades. Nas mulheres gestantes, os danos são ainda mais graves, pois o mercúrio atinge o feto, causando deformações irrecuperáveis.

PESQUISA ANTERIOR

Esse cenário é parecido com o que foi encontrado em outra área da terra ianomâmi, em 2016, e em regiões de garimpo como no rio Tapajós, no Pará. Um estudo da Fiocruz, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), mostrou algumas aldeias chegam a ter 92% das pessoas examinadas contaminadas por mercúrio.

Em outubro de 2017, lideranças indígenas yanomami denunciaram que 22 crianças morreram por contaminação de mercúrio no rio Uraricoera, devido aos garimpos ilegais na região do Palimi-U, em Alto Alegre, ao Norte do Estado. Segundo os tuxauas e conselheiros indígenas, à época, o problema se arrastava há mais de duas décadas.

Ainda de acordo com os indígenas, os casos foram registrados entre os meses de fevereiro e março de 2017. Mas os casos voltaram a acontecer em outubro, quando um indígena de 48 anos morreu, em menos de 24h, depois de comer um peixe que ele havia pescado no rio. Os indígenas chegaram a enviar ofícios ao MPF, Polícia Federal (PF), Exército Brasileiro e Funai , mas nenhuma providência foi tomada para solucionar o caso.

Informações: Roraima em Tempo

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