morte da criança indígena que teria motivado as agressões a uma médica na Terra Yanomami, aconteceu em um ritual de cura e não durante o atendimento no posto de saúde, informou o advogado de Maria Vanessa, Glaucemir Mesquita de Campos, à equipe de reportagem da FolhaBV.

O caso ocorreu no último dia 15, na região do Xitei, em Alto Alegre. A médica, que atuava no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Y), foi transferida de avião ao Hospital Geral de Roraima (HGR) 24 horas após as agressões e passou por duas cirurgias. A Polícia Federal irá instaurar inquérito..

O menino indígena, que veio a óbito, foi submetido a um procedimento para a retirada de ‘bicho de pé’, parasita comum em áreas rurais. No relato da profissional de saúde, conforme Campos, a mãe levou a criança até o posto de saúde porque outra criança tinha sido atendida, pelo mesmo motivo, dias antes do ataque sofrido pela médica.

O atendimento foi realizado pela manhã em um pé e no outro, na parte da tarde. Na segunda retirada do parasita, ocorreram as complicações no quadro do paciente e o menino começou a convulsionar.

“Quando a criança veio a convulsionar, os indígenas a retiraram imediatamente do posto e foram levar pra fazer os rituais de cura. A criança quando foi levada pra lá, estava viva. A doutora Vanessa não teve a oportunidade de fazer os procedimentos de reanimação ou qualquer outro processo”, complementou Campos.

A versão da família, no entanto, contraria o advogado de Vanessa. Segundo Junior Hekurari, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami (Condisi-Y), a mãe da criança afirmou que o filho estava morto quando o retirou das mãos da médica e que não houve qualquer ‘pajelância’ ou ritual. O corpo do menino permaneceu na comunidade e não passou por exame.

No relatório do óbito, a enfermeira chefe do polo de saúde, informou que foram usados 30 ml de lidocaína, um anestésico local, para o procedimento nos pés da criança. A informação seria falsa, de acordo com o advogado de Vanessa. Ele disse à reportagem que foram usados apenas 5 ml, aplicados somente pela sua cliente.

Hekurari disse que esteve na comunidade e também conversou com os profissionais de saúde, entretanto, não afirmou se os dados sobre a dosagem são verdadeiros. O Condisi-Y tem acompanhado de perto o caso.

“O relatório foi feito pela enfermeira chefe do polo-base do Xitei. Não sabemos de fato se o que foi relatado procede, pois, a equipe de saúde informou que ela não estava presente no momento do procedimento. (…) O que ocorreu foi uma tentativa de homicídio, e nenhum erro justifica o que foi feito a profissional de saúde”, finalizou Hekurari.

A reportagem procurou a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério de Saúde para saber o que tem sido feito por parte do órgão para apurar o caso e aguarda retorno.

Médica está traumatizada e passou a usar remédios para dormir

Conforme o marido de Vanessa, o também médico Josimar Ribeiro, a esposa está traumatizada e passou a usar medicamentos controlados para dormir. Ela teria sido agredida por pelo menos seis homens, mas de acordo com uma colega de trabalho da profissional, podem ter sido 10. “Ela entra em sono e desperta assustada. Está completamente chocada”, diz.

A médica, segundo Ribeiro, está com uma ótima evolução e não terá sequelas, mas como seu estado continua exigindo cuidados, ela ainda não pode receber alta. Vanessa se prepara para uma nova cirurgia em um dos braços e será encaminhada à Manaus para continuar o tratamento.

Sobre permanecer em Roraima, o esposo diz que a médica não pretende mais trabalhar no estado e pedirá transferência. “Devido ao trauma, tudo aqui relembra isso”, afirmou.

Informações: Folha de Boa Vista – Foto: Aldenio Soares